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O que é Clean Core, e por que ele virou prioridade

O conceito da SAP para manter o núcleo do S/4HANA perto do padrão, as cinco dimensões que ele cobre, os níveis A a D, o que ele não é e por onde a própria SAP recomenda começar.

Equipe Sleevo · 27/08/2026 · atualizado em 23/10/2026 · 6 min de leitura

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"Clean Core" virou uma das expressões mais repetidas em projetos SAP, em propostas de RISE with SAP, em planos de upgrade e em painéis do SAP Cloud ALM. Como acontece com todo termo da moda, ele é usado de jeitos diferentes. Vale voltar ao que a SAP quer dizer com ele.

A ideia em uma frase

Clean Core é manter o núcleo do ERP o mais próximo possível do padrão da SAP, e fazer tudo o que é próprio da empresa de um jeito que não quebre quando a SAP atualiza o sistema.

O "núcleo" é o S/4HANA como a SAP entrega. "Limpo" não quer dizer vazio: quer dizer sem modificações no código da SAP e com as extensões ligadas a ele só por pontos que a SAP considera estáveis.

As cinco dimensões

A SAP descreve o Clean Core em cinco dimensões, e deixa claro que o conceito não é só sobre código:

Dimensão O que significa estar "limpa"
Processos Processos de negócio próximos das melhores práticas do padrão, sem customização desnecessária
Extensões Funcionalidade própria construída sem modificar a SAP, ligada ao núcleo só por pontos estáveis
Dados Dados mestres, de configuração e transacionais consistentes e sem lixo acumulado
Integrações Comunicação com outros sistemas por cenários e APIs padrão (OData, SOAP, eventos)
Operações Governança e monitoramento contínuos, para o núcleo continuar limpo depois do projeto

Os artigos desta série tratam da dimensão de extensões, onde mora o código Z, porque é a que hoje aparece medida no SAP Cloud ALM.

Os níveis A a D

Desde agosto de 2025, a SAP classifica cada extensão em quatro níveis. Eles substituíram o antigo modelo de três camadas (tier 1, 2 e 3), e a própria SAP os compara a uma etiqueta de eficiência energética:

Nível O que é Situação
A Só interfaces liberadas pela SAP, com contrato de estabilidade: código em ABAP Cloud ou aplicações no SAP BTP Clean Core
B APIs clássicas, como BAPIs, que especialistas da SAP indicaram como estáveis, mesmo sem contrato formal Clean Core
C Objetos internos da SAP, como leitura direta de tabelas. A SAP pode reclassificá-los a qualquer momento, para cima ou para baixo Condicionalmente limpo
D Usos fora das regras de extensão: objetos marcados como não-API, modificações, ampliações implícitas e gravação direta em tabelas da SAP Fora do Clean Core

Uma extensão recebe o pior nível entre os que ela usa. O cálculo de pontos que o SAP Cloud ALM faz a partir disso está em Como o SAP Cloud ALM calcula o débito Clean Core.

Por que virou prioridade

  • Atualizações mais frequentes. O S/4HANA recebe atualizações com regularidade, e cada uma exige testar e corrigir o código próprio que depende do que mudou. Quanto mais limpo o núcleo, menor esse custo a cada vez.
  • A SAP passou a medir. Desde o fim de 2025, o painel do RISE with SAP no SAP Cloud ALM mostra, sistema por sistema, a distribuição dos objetos por nível e um débito em pontos. O assunto saiu da conversa técnica e foi para o painel da gestão.
  • O caminho para a nuvem. Código em ABAP Cloud, o nível A, já segue as regras das edições de nuvem da SAP. O código clássico, mesmo no nível B, precisa ser refeito antes de ir para a Public Edition ou para o SAP BTP.

Como estender sem sujar o núcleo

A SAP oferece três caminhos, que podem ser combinados:

Caminho Para quê Exemplo
Key user (no próprio sistema) Ajustes feitos por usuário-chave, por apps Fiori, sem programação clássica Campos e lógicas simples adicionados a um processo
Desenvolvimento no próprio S/4HANA (on-stack) Código próprio no mesmo sistema, em ABAP Cloud, usando só APIs liberadas Uma regra de negócio da empresa num objeto de negócio padrão
Lado a lado (side-by-side) Aplicações separadas, no SAP BTP, que conversam com o S/4HANA por APIs Um aplicativo para fornecedores ou uma integração com outro sistema

O que sai do Clean Core é o caminho clássico sem controle: modificar código da SAP, gravar direto em tabelas da SAP e usar objetos internos que a SAP pode mudar a qualquer atualização.

O que Clean Core não é

  • Não é "zero código Z". É código próprio ligado ao núcleo por pontos estáveis. Um objeto Z em ABAP Cloud, que só usa APIs liberadas, está no nível A; um programa clássico sem nenhuma ocorrência fica no B (veja Por que um programa com tela clássica para no nível B).
  • Não é tudo ou nada. Um programa clássico que usa BAPIs e outras APIs clássicas está no nível B, e B conta como Clean Core.
  • Não é só para quem vai para a nuvem. Um sistema on-premise com o núcleo limpo atualiza mais rápido, com menos teste e menos risco.
  • Não é um projeto com fim. Sem governança, o código novo volta a sujar o núcleo. Por isso operações é uma das cinco dimensões.

Por onde a SAP recomenda começar

O whitepaper de Clean Core da SAP propõe uma ordem de prioridade para o código próprio:

  1. Nível D primeiro. A SAP pede correção imediata do que está fora do Clean Core.
  2. Código que ninguém usa. A SAP estima que cerca de 60% do código Z dos clientes não é usado. As ferramentas SCMON e SUSG mostram o que não roda; apagar é a correção mais barata que existe, começando pelo que está em D.
  3. Reduzir o nível C o máximo possível, trocando objetos internos por APIs liberadas ou clássicas.
  4. "Stay clean" para o código novo: nada novo pode entrar em C ou D. ABAP Cloud no desenvolvimento novo e uma verificação do ATC antes de cada transporte garantem isso. A organização em componentes de software ajuda a evitar dependências escondidas (veja Componentes de software no ABAP Cloud: quem pode chamar quem).
  5. "Get clean" para o legado: reduzir o débito aos poucos, com uma meta em torno de 10% ao ano, aproveitando cada mudança num objeto para deixá-lo mais limpo do que estava.

Para a evolução aparecer onde a gestão olha, a SAP recomenda importar o resultado do ATC no SAP Cloud ALM toda semana.

Fontes

  • SAP, Clean core extensibility (white paper), edição de agosto de 2026.
  • SAP, Extend SAP S/4HANA in the cloud and on premise with ABAP based extensions (ABAP Extensibility Guide), versão 2.3, agosto de 2025.
  • SAP Help, SAP Cloud ALM, Extensibility (painel do RISE with SAP Methodology).
  • SAP Learning, Discovering the Clean Core Concept.